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segunda-feira, 2 de maio de 2011

A casa do adeus


Garoto, pequeninho, aos 6 anos, Romildo se despediu do tio Orestes, em casa mesmo, no casarão rosa, de esquina, comprado pelo pai, empresário, na mão de grupo de 37 herdeiros da avó viúva, portuguesa. O moleque, morador da mansão, não arredou a presença da sala de luxo, tampouco as mãos do caixão reforçado, feito especialmente para dar conta dos quase 200 quilos do amigo boa gente. Os dedinhos corriam pelos cravos amarelos que enfeitavam o morto. “O menino vai ter pesadelo, Luiz Otávio... e a mão dele... olha lá... vai ficar com cheiro de defunto”, sussurrava a mãe, nervosíssima, irmã do falecido, entre uma centena de amigos e parentes distantes. O pai, centrado, rebatia: “Deixa quieto. Deixa quieto”.

Menino Romildo não disse palavra. À beira da urna, sob lustre do século passado, em pé-direito altíssimo, lembrava-se de dias felizes com o padrinho. Não fazia muito tempo, foi o Orestes quem o ensinou a andar de bicicleta. Coisa de dias, na Praça da liberdade. A magrela, uma BMX amarela, também foi presente do tio, que não teve mulher nem filhos. O bom Orestes, funcionário público, jamais teve sorte com as mulheres. Tímido, extremamente reservado com as moças, viveu para o trabalho e para as crianças. A família soube mais tarde que a metade do salário, por mais de 20 anos, era destinada aos pequenos de um abrigo para portadores de necessidades especiais.

Tampa fechada, depois de missa e choro sentido de muitos presentes, Romildo segurou firme a alça do caixão e não a largou até que o tio fosse colocado na veraneio da funerária. No carro da família, a mãe fez de tudo para que o filho desistisse de ir ao cemitério. Já o pai, Luiz Otávio, entendeu bem a expressão e o silêncio do garoto: “Deixa quieto, Dagmar. Deixa quieto”. No Parque da Colina, Romildo foi o primeiro a retomar a alça do caixão. A mãe não segurou: “Sai daí! Isso é pesado, meu filho! Deixa o seu pai!” O moleque não obedeceu e seguiu segurando a alça de aço até a cova de número ímpar. Pouco a pouco, viu o caixão ser coberto pela terra avermelhada. “Tchau, tio!”, disse baixinho.

De volta ao casarão cor-de-rosa, o tempo ganhou asas e muitos mortos. Família grande, não demorou mês para que novo velório ganhasse o salão principal da residência. E outro e mais outro. Em mais de 15 anos, foram dezenas de velórios na casa do Romildo. Até que Dona Dagmar, assim como o irmão Orestes, partiu de repente, vítima de infarto, dias antes do aniversário do filho. Romildo, homem feito, deu a maior força para o pai, tristíssimo com a morte da mulher. Viu-o ajeitar com amor o vestido e as rosas brancas que cercavam o corpo da falecida. O lustre antigo aceso, as lembranças do padrinho Orestes, anos atrás, e de todos os parentes ali velados, fizeram com que o crescido Romildo convencesse o pai, dono de grande funerária, a encontrar novo lar e a transformar o imóvel cor-de-rosa em “A casa do adeus”.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 2/5/11

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